Umas das principais fontes de desinformação sobre suicidabilidade parte das duas correntes mais difundidas sobre teleologia biológica (e não necessariamente completamente erradas, mas aqui, especificamente erradas) que são "formas de vidas são máquinas guiadas por uma perfeição" (o que é inspirado na admiração da complexidade e inteligência orgânica) e pela teleologia do gene egoísta (que apesar de ter sucesso em se opôr a teleologia do design, impôs a sua própria e não apenas isso, inseriu um novo dualismo, invés de corpo-espirito, inseriu gene-meme) "que as formas de vida e sua história são a gradação do acidente químico até se tornarem meios para o fim genético".
Para as "duas correntes" (a redução para duas é para fins didáticos), o suicídio seria o fenômeno anti-natural, que seria a deliberação do ser humano usando seu livre-arbítrio, ou a possibilidade de sua complexidade neurológica, para atentar contra o design, ou contra o propósito genético.
Entretanto, é válido resgatar a estatística, não necessariamente para torná-la a nova teleologia, mas para impedir que as teleologias expliquem o fenômeno do suicídio pelo automatismo da "verdade manifesta". Primeiro, em Durkheim, que fugindo da explicação fácil, reuniu informações em busca de padrões sociológicos por trás dos trágicos números de suicídio de seu tempo. E em segundo, o entendimento estatístico que Schrödinger trouxe para ajudar a esclarecer o fenômeno biológico.
Então, sabe-se aqui com exaustão o que é suicidabilidade? Não. E não será tratado aqui. Mas aqui será tratado o que não se sabe, e o que não se sabe é o automatismo da teleologia "egoísta" e da teleologia de "design" sobre o tema.
Mas como refutar as duas ao mesmo tempo? Reconhecendo a vida pelo que essa é. Mesmo o "design de imediato", teria que ter no mesmo adaptabilidade tanto no ser humano quanto em outras formas de vida, para serem compatíveis com o árbitro humano e seus efeitos no mundo, que é o princípio mutável desse esquema, a fim de sobreviverem para cumprirem propósito no imutável. Ou seja, o design, precisa admitir uma medida de caos para afirmar sua ordem, e o faz, ao afirmar livre-arbítrio e uma natureza que saiu do design e por isso sofre e vive em conflito, até que se reconciliem com o mesmo.
Agora, quanto ao "egoísmo" genético, não é o propósito inerente, mas como será demonstrado aqui, apenas uma escolha de evento dentre os fenômenos físico-químicos do universo, alguns interferindo de forma favorável e/ou contrária, outros não relevantemente (o que parecerá novo conceito, mas é apenas ortodoxia). Primeiro que o atributo em comum de material genético e material proteico é inviezar o comportamento de outras moléculas orgânicas, diferencialmente responsivas aos mesmos, o que as predispõe a diferentes ciclos químicos. Além disso, o material genético e proteico também inviezam seus pares (ou seja, a si mesmos). Segundo, a única forma de vida que poderia gerar historicidade filogenética, seria a que poderia gerar rastros passíveis de serem repetidos e modificados (e a única forma de vida que poderia gerar ciência, seria uma vida que tivesse complexidade). Ou seja, de todas as formas de vida possíveis, a passível de ser consumada é a que tem replicabilidade e capacidade de organizar material para a mesma. O que pode-se atribuir como o "princípio" de conservação e reprodução. Só que o princípio não é uma lei externa, é apenas o padrão observável do específico ciclo bioquímico que define-se como vida. Ou seja, o princípio é um recorte e um resultado. Nas várias possibilidades de emergência da vida e dos vários atributos que poderiam ter, é de se concordar que a única passível de gerar filogenia é a que tivesse capacidade reprodutiva e de "conservação" simultâneas. Ora, sendo o material genético, algo que precisa ser resistente e ao mesmo tempo flexível (aperiódico), daí a porta da complexidade (e também da "simplicidade", uma forma de complexidade que revela especialização). Portanto, o ponto comum de conservação e reprodução é apenas o viés mais reforçado da evolução e o atributo mais antigo desde a primeira forma de vida viável (relacionável ao LUCA). Com a agregação e diferenciação de outras funções, estruturas e dinâmicas das formas de vida, é de se esperar que os atributos mais reforçados e frequentes da árvore da vida, do recorte de eventos físico-químicos que se chama organismo, sejam os atributos mais estatisticamente prováveis de influenciar os outros (e dessa forma, inviezando os mesmos pela seleção a se regularem em relação a si, não excluindo influência recípocra). Assim, pode-se observar sem contradição teleológica que sim, todas as formas viáveis de vida conhecidas, possuíam na resultante de interregulação orgânica, a capacidade de reprodução e manutenção, mas não necessariamente tal reprodução e manutenção eram garantidas apenas "por nascer", ou seja, extinções, doenças genéticas e por patógenos, desenvolvimentos comprometidos, ecologias atípicas e cursos de ação com consequências letais também ocorreram, mesmo com reforço estatístico seletivo e passível de otimização que precedeu formas de vidas não mais existentes. Ao mesmo tempo, na complexidade da vida, não se observa apenas a prova "negativa" da não teleologia "egoísta". Mas também, que dentro de todos os comportamentos das formas de vida, é possível ver, singularidades não necessariamente teleologicamente "egoístas", mas esperados dentro da complexidade. Como adoções interespécie, comportamentos recreativos e criativos que se vê em humanos, mas não exclusivamente nos mesmos. Ou seja, não teleológicos, mas possibilitados pela complexidade gerada pelos motores biológicos: A complexidade precede a teleologia. (Os genes não predestinaram Beethoven à composição, mas a complexidade de interregulação dos mesmos permitiram Beethoven, o compositor, com uma possibilidade passível de existir). Patógenos, não são mais egoístas que formas de vidas complexas e animais sociais, apenas menos complexos para terem comportamentos que são possibilitados por relações metabólicas-neurológicas específicas e com maior massividade. Assim sendo, pode-se desmistificar a suposta “vilania” ou “egoísmo” dos patógenos em comparação às formas de vida complexas e aos animais sociais. Patógenos não são intrinsecamente mais egoístas; eles apenas operam em uma escala de menor complexidade, desprovidos dos comportamentos que emergem de interações metabólico‑neurais específicas. Enquanto organismos complexos investem em mecanismos de interregulação e em camadas de variabilidade regulatória, que asseguram estabilidade na flexibilidade, o patógeno atua pela simplicidade replicativa de um ciclo bioquímico direto, linear e pouco mediado. O que a teleologia clássica rotula como “egoísmo” é, na verdade, apenas o viés de conservação de um evento químico mais simples, que por não possuir multiplicidade regulatória, depende de repetição intensiva para garantir sua persistência. Portanto, a diferença entre a cooperação social humana e a agressividade viral não reside em uma distinção moral ou em um “propósito” oculto, mas na sofisticação das funções emergentes possibilitadas pela complexidade orgânica: Onde a variabilidade cria resiliência e a simplicidade replicativa sustenta a sobrevivência dos patógenos. Agora, entendendo patógenos como metáfora a processos ideativos, ideações não se replicam apenas porque são um "meme" ou "influência" anti-vida, mas apenas porque os tipos ideativos (sejam do tipo mais replicativo e/ou de maior impacto na agência da pessoa), correspondem a caminhos neurais cuja frequência suplanta outros caminhos mais favoráveis a sustentabilidade da vida, ou porque modulam outros a estarem relacionados a seu impacto na agência neurológica, ou seja, a própria personalidade e processo decisório).
E o que isso se refere ao problema do suicídio? Que é um problema de saúde, um problema social, mas não uma ruptura de design e nem uma ruptura de "funcionamento genético". Não existe uma "programação", nem de um design externo e nem de um "egoísmo" herdado, que impede que um problema de saúde como este, ponha fim na vida de algúem, ou não pondo fim irreversível, diminua a qualidade de vida, enquanto existe um processo ideativo que altera negativamente o modo de viver. Assim, entende-se que a suicidabilidade não é uma "'violação de uma lei", seja divina ou natural ou uma traição a um propósito intrínseco imposto por design ou genética. Não havendo uma teleologia automática, o fenômeno revela-se como um estado possível dentro de um sistema de alta complexidade, no qual a regulação homeostática pode ser afetada por variáveis interferentes, de "ordem" social e ambiental e de "ordem" bioquímica. Em última análise, não há uma ruptura com um design ou uma falha de uma essência 'egoísta', mas sim a cessação de um ciclo que se tornou estatisticamente insustentável para um indivíduo específico. E a humanidade não está dividida entre os "não suicidas" e dos passíveis de suicidar. Apenas entre pessoas que estão em certos contextos orgânicos e interativos em menor ou maior probabilidade de serem afetadas pela existência ou emergência desse problema. Assim é necessário tirar o suicídio como monopólio dos "especialistas em teleologia" e devolver o tema a um lugar mais apropriado: O campo da análise estrutural, da saúde pública e da solidariedade social, livre de predestinações "metafísicas" ou "naturalistas". Suicídio precisa continuar a ser pensado e investigado, porque é uma realidade triste e recorrente que precisa ser diminuída ao máximo no atual momento da história. Mas para se chegar em melhores respostas, é preciso se livrar das falsas e principalmente, das automáticas.